sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Senador Georgino Avelino, uma biografia


Temos encontrado poucas informações sobre o nosso Senador, hoje, nome de Município do Rio Grande do Norte. Por isso, transponho para cá uma biografia, que faz parte do Dicionário Histórico –Biográfico Brasileiro – DHBB, da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC), que me enviou seu neto George Avelino Filho, funcionário da FGV.
José Georgino Alves e Sousa Avelino nasceu em São José de Angicos  (na verdade Angicos, RN) no dia 31 de Julho de 1888, filho do Jornalista Pedro Celestino da Costa Avelino, fundador dos Jornais A Gazeta do Comércio e Diário da Tarde, e de Maria das Neves Alves de Sousa Avelino. Fez os estudos primários na Escola Modelo de Natal. Seguiu o curso de humanidades no Atheneu Norte-Riograndense, prestando exames finais no Liceu Paraibano.
Como seu pai, dedicou-se ao jornalismo, fundando em 1909 o jornal A Pátria, em Recife. No ano seguinte, partiu para o território do Acre, onde administrou o departamento do Juruá. Em 1911, diplomou-se como Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro.
Georgino Avelino integrou a representação consular do país, exercendo, a partir de 1912, as funções de adido consular na cidade italiana de Gênova. Ali fez o curso de Civilização Antiga e Arqueologia.
Como jornalista, apoiou a candidatura de Artur Bernardes, vitorioso na campanha eleitoral à presidência da Republica em 1922. Esse apoio veio  a lhe ser útil pouco tempo depois: em 1924, elegeu-se deputado federal pelo Rio Grande do Norte, graças à pressão do presidente Bernardes, que obteve a inclusão de seu nome na chapa oficial do estado para a 12ª legislatura federal. Participou dos trabalhos parlamentares até 1926.
Após o triunfo da Revolução de 1930, que levou ao poder Getulio Vargas em 3 de Novembro desse ano, Georgino Avelino – ao lado de João Café Filho e de José Augusto Bezerra de Medeiros – foi vetado para ocupar postos de comando administrativo, por ser considerado, pelos militares vitoriosos, comprometido com o governo deposto do presidente Washington Luis.
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, lutou ao lado dos paulistas, participando como voluntário do Batalhão Ferroviário. Prisioneiro das tropas federais em Santos (SP), após a derrota das forças paulistas, foi paro o Rio, onde retornou a atividade jornalística, escrevendo editoriais para diversos jornais da capital federal.
Reconciliado com Vargas, foi, no Estado Novo (1937 -1945), secretário-geral da Universidade Federal e diretor de Turismo e Propaganda da prefeitura do Distrito Federal de 1937 a 1941, durante a administração do prefeito Henrique Dodsworth. Nesse último ano, escreveu uma biografia do Duque de Caxias intitulada Caxias para a Juventude, publicada pela Imprensa Nacional.
Em Agosto de 1945, já em pleno processo de desagregação do Estado Novo, foi nomeado interventor federal no Rio Grande do Norte, sucedendo ao general Antonio Fernandes Dantas. Na manhã de 28 de Outubro, passou o cargo ao secretário-geral Dioclécio Dantas Duarte e viajou paro o Rio. No dia seguinte, Getulio Vargas foi deposto pelos chefes militares e o poder passou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) José Linhares.
As eleições marcadas em Maio por Vargas foram mantidas.
Em 2 de Dezembro, o general Eurico Gaspar Dutra, candidato do Partido Social Democrático (PSD), derrotou seu principal  adversário, o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), elegendo-se presidente da República. Nesse mesmo dia, Georgino Avelino, um dos articuladores do PSD no Rio Grande do Norte, elegeu-se Senador por esse estado  à Assembléia Nacional Constituinte.

Empossado em fevereiro de 1946, ocupou o cargo de primeiro-secretário da Constituinte. Com a promulgação da nova Carta (1819-1946) e a transformação da Constituinte em Congresso ordinário, exerceu seu mandato até janeiro de 1955.
Durante seu primeiro mandato como senador, foi primeiro-secretário do Senado em 1948 e em 1950, tendo a partir daí, chefiado por três anos a Comissão de Relações Exteriores.
Durante a presidência de Eurico Dutra (1946-1951), foi líder do governo no Senado.
Integrou por duas vezes – 1952 e 1954 – a delegação brasileira aos trabalhos da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.
Foi reeleito Senador pelo PSD do Rio Grande do Norte em Outubro de 1954, iniciando seu segundo mandato em fevereiro de 1955. Foi membro da Comissão Executiva do seu partido para assuntos de política federal.
Fundou e dirigiu o Rio Jornal com Inácio Azevedo do Amaral e João do Rio, tendo colaborado com a Gazeta de Notícias e o Diário Carioca. Fundou a Radio Caboji (Cabugi), em Natal, e foi redator-chefe de O País. Foi ainda presidente do Banco Industrial Brasileiro e escrivão de 1º oficio da 2ª Vara da Fazenda Pública.
Além da obra citada, publicou palestras e conferencias.
Faleceu no Rio de Janeiro no dia 2 de Abril de 1959.
Foi casado com Maria Giovana Margherita Astengo Avelino de nacionalidade italiana, com que teve cinco filhos. 

Luíza Alzira Soriano Teixeira foi a primeira prefeita eleita no Brasil


 Os 80 anos do voto de saias no Brasil - TRE/RN

No dia 25 de outubro de 1927, pela Lei estadual nº 660, as mulheres brasileiras puderam, pela primeiradas. O Artigo 77 das Disposições Gerais do Capítulo XIIda referida lei determinava: “No Rio Grande do Norte poderão votar e ser votados, sem distincção de sexos, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por esta lei”. Era governador do estado José Augusto Bezerra de Medeiros, que seria substituído na administração estadual por Juvenal Lamartine de Faria no ano de 1928. Ambos eram líderes políticos do sertão inseridos nas relações oligárquicas da República Velha.
Essa abertura política conferida às mulheres no Rio Grande do Norte é resultante das reivindicações feministas por igualdade social lideradas em âmbito nacional pela bióloga paulista Bertha Lutz (1894-1976). Ela se tornaria, a partir de 1918, “[...] uma das mais expressivas lideranças feministas na campanha pelo voto feminino e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no Brasil”. Foi através do contato com Bertha Lutz no Congresso Nacional que Juvenal Lamartine, deputado federal pelo Rio Grande do Norte no período entre 1906 e 1926, apresentou como uma das propostas da sua plataforma de governo a intenção de contar “[...] com o concurso [voto] damulher [...] na escolha daqueles que vêm representar o  povo [...] e elaboram e votam a lei".
 vez, no Rio Grande do Norte, ter reconhecido o direito de votar e serem vota

As mulheres norte-rio-grandenses não estavam totalmente inseridas no contexto nacional de reivindicações por igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas também não estavam alijadas desse processo. A tomada de consciência ocorreu quando as mulheres potiguares se tornaram pioneiras de uma importante conquista política e cidadã na história da América do Sul: o direito de poderem votar e serem votadas para cargos públicos eletivos.
No mesmo ano de 1927, de acordo com a professora Maria do Nascimento Bezerra, um mês após a publicação da Lei nº 660, na cidade de Mossoró, a professora Celina Guimaraães Viana, aos 29 anos de idade, “[...] após encaminhar bem-sucedida petição reivindicando sua inclusão no rol de eleitores [...]" daquele município, tornou-se a primeira mulher habilitada a votar na América do Sul. Mas Celina Guimarães não foi a única a solicitar o direito a voto no Rio Grande do Norte naquele ano. Júlia Alves Barbosa, em Natal, fez a solicitação no mesmo dia que Celina, 27 de novembro, e teve o pedido atendido dois dias depois, enquanto o desta  foi atendido no mesmo dia.
É importante salientar ainda, segundo informa Rachel Soihet, que já na primeiradécada do século XX as mulheres reivindicavam o direito de voto. As pioneiras foram a advogada Myrthes de Campos, primeira mulher a ingressar na Ordem dos Advogados do Brasil e a professora Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino em 1910. Ambas tiveram os pedidos negados, apesar de terem se baseado nos Artigos 69, 70 e 72 da primeira Constituição Republicana do Brasil de 1891 e no Código Eleitoral vigente desde 1904  que, além de não excluírem em seus textos as mulheres dos conceitos de cidadania e das condições de elegibilidade, asseguravam a todos a igualdade de direitos".


Apesar de, do ponto de vista eleitoral, o estado do Rio Grande do Norte ter reconhecido esta igualdade, faltava, porém, a concretização do “voto de saias”, o que ocorreu nas eleições municipais realizadas no dia 05 de abril de 1928. Em Natal votaram Antônia Fontoura, Carolina Wanderley, Júlia Barbosa e Lourdes Lamartine. Em Mossoró, além de Celina Guimarães, votaram Beatriz Leite e Eliza da Rocha Gurgel. Em Apodi as primeiras eleitoras foram Maria Salomé Diógenes e Hilda Lopes de Oliveira. Em Pau dos Ferros, Carolina Fernandes Negreiros, Clotilde Ramalho, Francisca Dantas e Joana Cacilda Bessa. Aindaem Caicó e Acari, respectivamente, Júlia Medeiros e Martha Medeiros. Além de votar, algumas mulheres, a exemplo de Júlia Alves Barbosa em Natal e Joana Cacilda de Bessa em Pau dos Ferros,  foram também eleitas para o cargo de intendente municipal, equivalente a vereador atualmente."


Ao interpretar a Constituição e o Código Eleitoral, o Congresso Estadual do Rio Grande do Norte, ainda no ano de 1927, favoreceu a ampliação das reivindicações pelo direito de voto e elegibilidade às mulheres em outros estados da federação, o que viria a acontecer efetivamente na década seguinte. Entrementes, num país cujas instituições republicanas ainda engatinhavam, era preciso garantir e consolidar o direito de voto das mulheres. Para tanto, foi criada em agosto de 1928 a Associação de Eleitoras Norte-Riograndenses, filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada e coordenadanacionalmente por Bertha Lutz. A associação objetivava “[...] coordenar e orientar os esforços da mulher norte-riograndense, no sentido de elevar-lhe o nível de cultura e tornar-lhe mais efficiente a actuação na vida doméstica, social e política.". O propósito dessa agremiação estava em consonância com a proposta de Bertha Lutz, que “[...] propunha a formação de associações, imprescindíveis para funcionarem como elementos de pressão e para fazer frente às reações surgidas, garantindo ‘o êxito no rompimento dos tabus e preconceitos relativos à libertação da mulher".


Nesse mesmo ano de 1928 Bertha Lutz fez uma visita ao Rio Grande do Norte e além de ter influenciado a fundação da associação de eleitoras, promoveu também a candidatura de Luiza Alzira prefeitura de Lajes. Juntamente com Juvenal Lamartine, governador do estado, Bertha Lutz fez uma visita ao “coronel” Miguel Teixeira de Vasconcelos, pai de Alzira, que à época, estava com 31 anos. “Esta é a mulher que estamos procurando”, teria dito Bertha Lutz à Juvenal Lamartine, afirma Heloiza Souza. Alzira Soriano se tornou a primeiraprefeita eleita da América do Sul na cidade de Lajes, com 60% dos votos válidos.
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Considerando as prováveis palavras de Bertha Lutz, acima destacadas, a eleição de Alzira Soriano, bem como o pioneirismo do direito de voto conferido às mulheres no Rio Grande do Norte representaram – e representam até o presente – fatos decisivos na luta por cidadania e igualdade de direitos entre homens e mulheres no Brasil. Essas conquistas seriam institucionalizadas nos primeiros anos do governo de Getúlio Vargas, através do Código Eleitoral de 1932, pelo Decreto nº 21.076, que permitiu o voto feminino em todo o território nacional, o que veio a consolidar-se na Constituição de 1934. Não deve-se, porém, confundir direito de voto e elegibilidade com igualdade de direitos e cidadania plena para todas as mulheres brasileiras. Essas reivindicações ecoavam de uma parcela dada, alfabetizadada classe média. A maioria das mulheres do país, pobres e analfabetas, continuavam sem acesso a direitos mínimos e sem cidadania plena. Para elas, o voto não representava muito. Desde que soubessem assinar o nome, mais importante seria justificar o poder político dos coronéis em troca de trabalho nas plantações de café ou de um litro de leite para minimizar a fome.
 população feminina esclareci

Entretanto, as mulheres norte-rio-grandenses estiveram na vanguarda das conquistas políticas feministas no Brasil. Não foram, porém, as pioneiras do discurso libertário. É preciso compreender aquele momento político sob a ótica de um contexto histórico que favoreceu a ascensão das mulheres potiguares no cenário nacional. Vivia-se no Brasil da República Velha, do sistema coronelístico-oligárquico; a sociedade era moldada pelos padrões aristocráticos, mas a plástica, a sutileza e a sensibilidade das mulheres, conferiam um ar mais delicado e sutil na vida pública e na sociedade brasileiras, desprendendo, pelas vias políticas e pacíficas, as amarras sob as quais viviam as mulheres na vidadoméstica sob o julgo dos seus senhores e maridos.


Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927. Disponível impressa no acervodo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Livro de Leis e Decretos, 1927 e digitalizado no sítio do Centro de Memória da Justiça Eleitoral Professor Tarcísio Medeiros:< http://www.tre-rn.gov.br>.
SOIHET, Rachel. A pedagogia da conquista do espaço público pelas mulheres e a militância feminista de Bertha Lutz. Revista Brasileira de Educação. Campinas/SP: Autores Associados, n. 15, set/out/nov. 2000, p. 97-117. Disponível em: <http://www.anped.org.br/rbe/rbe/rbe.htm >. Acesso em: 20 nov, 2007.
BEZERRA, Maria do Nascimento. Jornal Diário de Natal, Natal, n. 07, 28 mar. 2004, 13 p. [Coleção Leituras Potiguares].
SOIHET, Rachel. Op. Cit.
BEZERRA, Maria do Nascimento. Op. Cit.
Estatutos da “Associação de Eleitoras Norte-Riograndenses”. Réplica tombada sob número 219 no Centro de Memória da Justiça Eleitoral do Rio Grande do Norte Professor Tarcísio Medeiros.
SOIHET, Rachel. Op. Cit.
SOUZA, Heloisa M. G. Pinheiro. Luisa Alzira Teixeira de Vasconcelos:primeira mulher eleita prefeita na América do Sul. 1. ed. Natal: UFRN/CCHLA/EDUFR. 72 p.




foto alzira site

Luíza Alzira Soriano Teixeira foi a primeira prefeita eleita no Brasil e na América Latina. Tomou posse no cargo em 1º de janeiro de 1929. Viúva, Alzira Soriano disputou em 1928, aos 32 anos, as eleições para a prefeitura de Lajes, cidade do interior do Rio Grande do Norte, pelo Partido Republicano, e venceu com 60% dos votos, quando as mulheres nem sequer podiam votar.
Mas foi pouco tempo de administração, apenas sete meses. Com a Revolução de 1930, Alzira Soriano perdeu o seu mandato por não concordar com o governo de Getúlio Vargas. A responsável pela indicação de Alzira como candidata à Prefeitura de Lajes foi a advogada feminista Bertha Lutz, uma das figuras pioneiras do feminismo no Brasil.
A administração de Alzira Soriano à frente da Prefeitura de Lajes resultou na construção de novas estradas, como a que fazia a ligação entre os municípios de Cachoeira do Sapo e Jardim de Angicos. Ela também construiu mercados públicos distritais, fez escolas e cuidou da iluminação pública a motor.
Somente com a redemocratização, em 1945, Alzira Soriano voltou à vida pública, como vereadora do município de Jardim de Angicos, onde nasceu. Foi eleita por mais duas vezes consecutivas, liderando a União Democrática Nacional (UDN). Chegou à Presidência da Câmara de Vereadores mais de uma vez. Aos 67 anos, Alzira morre em 28 de maio de 1963 por complicações de um câncer.
Direito ao voto
Nas eleições convocadas por Getúlio Vargas para uma Assembleia Constituinte, nos anos de 1934 e 1935, foi eleita a primeira mulher deputada federal, Carlota Pereira de Queiroz, médica paulista. Berta Lutz, cientista e feminista, primeira suplente do Distrito Federal, assumiu o mandato em 1936.
Com muita luta na vida política, outras mulheres garantiram que, pela primeira vez, a Constituição brasileira consagrasse, entre outros aspectos, o princípio de igualdade entre os sexos, o direito do voto feminino e as garantias de proteção ao trabalho da mulher. São elas: Maria do Céu Pereira Fernandes, a primeira deputada eleita do Rio Grande do Norte, em 1934; e Almerinda Ganla, eleita entre os 40 delegados classistas (trabalhadores e empregados), em 1935.
De acordo com Ane Cajado, historiadora do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Constituição Republicana de 1891 não proibia o voto feminino, pois considerava como eleitores os cidadãos brasileiros maiores de 21 anos. “A interpretação que se fazia era de considerar cidadão brasileiro apenas o homem”, explicou.
Ainda segundo a historiadora, a eleição da primeira deputada no Brasil, Carlota Pereira, “sem dúvida foi um marco da história da emancipação da mulher”. Seu mandato foi em defesa da mulher e das crianças e trabalhava por melhorias educacionais que contemplassem melhor tratamento das mulheres. Além disso, publicou uma série de trabalhos em defesa da mulher brasileira.
BB/LC

As Cartas de João Dantas e a Morte de João Pessoa



O que não se esperava é que um fato vindo da pequena Paraíba pudesse desaguar na grande revolução de 30... Dia 26 de julho, era assassinado o presidente do estado da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, renomado político e candidato à vice-presidência da chapa derrotada do gaúcho Getúlio Vargas.

João Pessoa

As esquinas das ruas Palma e Nova, no centro rico de Recife, foi o palco dos 3 tiros que viriam a tirar a vida de João Pessoa. Ali, na Confeitaria Glória, ponto de encontro da elite nordestina, em 26 de junho de 1930 morria uma das maiores lideranças políticas do nordeste e aliado do derrotado Getúlio Vargas.  O crime, apesar de ter sido o estopim para o movimento “revolucionário” não teve ligação com a campanha presidencial. 

Um conflito entre o advogado paraibano João Dantas, João Pessoa e o coronel José Pereira, chefe da cidade de Princesa teria sido o real motivo do assassinato. Senão vejamos: era presidente do estado da Paraíba, João Suassuna, que a revelia da oligarquia de Epitácio Pessoa, articulava a sua própria sucessão lançando a chamada chapa dos 3 Jotas: seu chefe de polícia Júlio Lyra e os coronéis José Pereira e José Queiroga para a presidência, e primeira e segunda vice presidências do estado, consolidando sua força no estado. 

Epitácio Pessoa interveio e lança seu sobrinho João Pessoa que ganha a disputa e no discurso de posse em outubro de 1928 declara: “que desejava assegurar garantias a todos e que levaria a polícia a vasculhar propriedades à procura de armas que abasteciam o cangaço.” Frontalmente contra a política sertanista de Suassuna e Zé Pereira de complacência com o banditismo cangaceiro.  No conflito envolvendo as partes, que culminou com a chamada “Revolta de Princesa”, o advogado João Dantas, filho do coronel Franklin Dantas do município de Teixeira, havia tomado partido de Zé Pereira.

 
Anayde: Cartas de amor publicadas...

A oposição mantida a João Pessoa por João Dantas se efetivava violenta, um apartamento seu, localizado em um sobrado da então Rua Direita, 519, bem no centro da capital e próximo do palácio onde trabalhava João Pessoa, foi invadido pela polícia no dia 10 de julho, livros, documentos e móveis de João Dantas foram queimados na calçada fronteira. Ali também teriam sido recolhidas correspondência íntimas entre João Dantas e sua noiva Anayde Beiriz, ato contínuo O jornal A União, que já era então o órgão oficial do governo da Paraíba, publicou uma série de acusações gravíssimas a familiares de João Dantas, inclusive ao patriarca, Cel. Franklin Dantas, unido a isso fizeram publicar em  jornal local, as cartas que João Dantas tinha escrito para sua amada, Anayde . 

Aqui abrimos um parêntese para citar declaração do historiador  José Joffily sobre o escárnio sofrido por Dantas com relação à privacidade de sua relação com a amada: “Bem me lembro, quando,a caminho do Colégio Pio X onde estava concluindo o ginásio, entrei numa fila, com outros estudantes, para ler sonetos extravagantes e páginas confidenciais do diário do fogoso advogado, eram confidências amorosas entre o advogado João Dantas e Anayde Beiriz”.

As desavenças e ódio passaram a deixar cada vez as ácidas e perigosas as ligações entre Dantas e João Pessoa, culminando, diante da pressão de amigos, com a mudança de João Dantas da Paraíba para Olinda em Pernambuco.  

Jornal do Brasil e a manchete da morte de João Pessoa

João Dantas, que morava em Olinda, aproveitou uma visita do presidente do vizinho estado paraibano à cidade do Recife; a despeito de visitar um amigo enfermo, o Juiz Francisco Tavares da Cunha Melo, internado no Hospital Centenário; mas que segundo afirmação de Ronildo Maia Leite, “provavelmente João Pessoa viera ao Recife encontrar-se com uma cantora com quem mantinha um romance secreto.”Essa cantora seria a soprano Cristina Maristany. E quando o mesmo se encontrava na Confeitaria Glória, entra João Dantas, armado de um revólver, acompanhado do cunhado Moreira Caldas. Se aproximando de João Pessoa teria dito: 

”-  João Pessoa? Eu sou João Dantas”. 

Aqui saem os cangaceiros das caatingas e entram os cangaceiros da capital... Vários tiros foram disparados por João Dantas e por Moreira Caldas, não se sabendo ao certo, qual tenha sido a bala fatal que mataria o político. Ainda segundo Ronildo Maia “ele morreu com as jóias que, minutos antes, havia comprado na joalharia Krauze para sua amante”. Em seguida ao assassinato do líder paraibano, o governo é assumido por seu vice-presidente Álvaro Pereira de Carvalho, que  muda o nome da capital da Paraíba para João Pessoa e o acrescenta o lema NEGO à bandeira do Estado, numa referência à resposta que João Pessoa teria dado via telegrama, ao presidente Washington Luís sobre a negação de seu apoio à candidatura vitoriosa de Júlio Prestes; o vermelho da flâmula representava o sangue da morte de seu líder e o preto, o luto.

João Dantas

Voltando à Confeitaria Glória; João Dantas ainda seria ferido pelo motorista de João Pessoa quando fugia, e depois acabaria sendo preso ao lado do cunhado Moreira Caldas e de novo a ironia do destino colaria cabeças decapitadas; como em Angico; no caminho do povo nordestino. 

Recolhidos à Casa de Detenção, do Recife, os dois foram degolados e tiveram suas cabeças enviadas para a Paraíba, era o dia 03 de outubro de 1930, o crime teria sido arquitetado pelo tenente da força policial Ascendino Feitosa, e seu auxiliar o soldado João da “Mancha”; ele tinha uma mancha escura no rosto, razão pela qual lhe foi dado esse apelido; como executor.  

Agora nos valemos de um trecho de entrevista prestada pelo Coronel Manuel Arruda de Assis, oficial da Policia Militar da Paraíba a José Romero Araujo em janeiro de 1989, “o indivíduo João da Mancha era considerado inclusive por seus antigos colegas de farda, como um psicótico, extravagante sangrador das forças volantes paraibanas. Naquele dia rompeu, com um bisturi pertencente ao medico Luiz de Góes, a carótida do advogado João Dantas, como também de seu cunhado, o engenheiro Moreira Caldas, ambos assassinados com a mesma “técnica”. O “serviço” fora feito por um profissional macabro que conhecia muito bem o seu “ofício”. O militar sabia milimetricamente onde iria romper a artéria, visto que a luta corporal travada entre o intrépido advogado João Dantas e os seus algozes impediu o seccionamento no ponto exato, como pretendia Dr. Luiz de Góes.” E continua o coronel Manuel Arruda, “só alguém que estava profundamente em contato com a “arte” de sangrar poderia ter feito um “trabalho” com tamanha perfeição”.


E continuando com as reflexões de Manuel Arruda, “quando as tropas comandadas por Juarez Távora, ativo integrante da coluna Prestes, chegaram ao Recife, o primeiro local visado pelos militares paraibanos foi a detenção onde se encontravam presos João Dantas e Moreira Caldas que se tornou alvo dos comandados por Ascendino Feitosa, estando entre estes João da “Mancha” e o médico Luiz de Góes.” Conforme o entrevistado, esse médico era capaz de tudo, regido por verdadeiro espírito sanguinário. E segue: “dominados os prisioneiros, Luiz de Góes apontou a Ascendino a carótida. João Dantas entrou em luta corporal com seus algozes, sendo atingido na sobrancelha. Com precisão invulgar, João da “mancha” recolheu o bisturi e aplicou certeiro golpe no local indicado, pondo fim à vida de João Dantas.” O entrevistado revelou que o corpo do advogado foi profanado de diversas maneiras, mesmo quando estertorava. Em seguida, o cunhado Moreira Caldas teve o mesmo fim, morrendo implorando para que o deixassem cuidar da família.

Segundo Manuel Arruda de Assis, era comum solicitar a presença de João da “Mancha” quando cangaceiros eram aprisionados. No combate de 1923, quando o sucessor de Sinhô Pereira fora ferido no tornozelo, no qual pereceram Lavandeira e Cícero Costa, ambos foram sangrados pelo frio soldado volante que se aperfeiçoou em matar usando o extremo da covardia e da perversidade.

Entretanto outra versão defende que João Dantas e Moreira Caldas se suicidaram com golpes de um mesmo bisturi, primeiro Dantas, depois Caldas, tese essa reforçada por supostos bilhetes deixados pelos mesmos em baixo de seus travesseiros. Segundo afirmações de José Joffily "como poderiam estes documentos de despedida, escritos em instante derradeiro, apresentar a correta redação, o talho das letras e a autenticidade das assinaturas, comprovadas em perícia, se tudo fosse escrito no tumulto de uma feroz degola e trucidamento?” e continua citando a confidência de João Dantas ao seu irmão Manoel, como prova do seu intuito de suicidar-se:

“-No caso de um movimento armado e vitorioso, 
eu não me entrego. Mato-me!” 
“-E tens ao menos com que te matar?” 
“-Ele abriu a gola do pijama e retirou dele um afiado bisturi.”.

Manoel Severo

Curador do Cariri Cangaço

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