No ano de 1952, aconteceu uma das maiores secas no Nordeste. Um sol
abrasador, os riachos, açudes, lagos, todos sem água. Os animais morrendo de
fome e sede, as ossadas embranquecidas pelo sol causticante entre xiquexique,
jurema e pedregulhos, corpos em decomposição sendo devorados pelas aves de
rapina, como urubus e carcarás exalavam uma fedentina insuportável. Uma
verdadeira paisagem de desgraça e calamidade na caatinga. As tardes quentes e
empoeiradas, redemunhos carregando as folhas e detritos secos do que antes fora
uma vegetação. Um quadro triste, o flagelo da seca em toda sua plenitude. Algumas pessoas famintas embrenhavam-se na
caatinga em busca do xiquexique ou gogóia para saciarem sua fome, de sua
família e do que ainda restava de sua criação de gado ou de ovino. O Governo Federal ativou imediatamente em
toda região do Nordeste à frente de trabalho, ‘emergência’. Como forma de amenizar o sofrimento do
sertanejo.
Em São Rafael, tinha um homem de
baixa estatura, analfabeto, mas dotado de uma inteligência privilegiada, não
quis se alistar na emergência preferiu trabalhar por conta própria, tirando,
queimando e trazendo xiquexique para vender aos fazendeiros próximos da cidade.
Nos dias de feira, que era nas segundas-feiras, entre um pileque e
outro, cantava a seguinte quadrinha, inventada por ele:
Xiquexique bom
Na caatinga
tem
Quem quiser
comer e vender
Vá tirar e
queimar também.
A caatinga que Felipe Cobra tanto
apregoava ficava encravada numa fazenda do Coronel Silvestre Veras, no vizinho
município de Paraú. Quase todos os dias, se embrenhava de propriedade adentro,
conduzindo uns quarenta jumentos encangalhados e encambitados, com a finalidade
de trazer a preciosa ração para vender e escapar o gado faminto, auxiliado por
doze pessoas sob o seu comando.
Partiam pela
madrugada e logo cedo a mercadoria se achava queimada e pronta para ser
conduzida. O local da queimada ficava bem visível, dada a coloração negra. O
capataz da fazenda do Coronel Silvestre era um senhor conhecido como João
Pequeno, que certo dia, vistoriando a propriedade, constatou que tinham
carregado uma grande quantidade de facheiro. “Tão invadindo a caatinga do
Coroné”, falou para ele mesmo, “vou pastorar e pegar esses
engraçadinhos”. Só que andou falando demais e logo a notícia chegou aos
ouvidos de Felipe Cobra que disse: Era só o que fartava, cumpade João Pequeno
se importar com a caatinga do Coroné Silvestre, prumode não vai se importar com
a catinga dele mesmo, pois faz mais de dois meses que não toma banho.
Os dias
passaram e nada de Felipe se decidir de tirar a comida para salvar o gado e
para sua própria sobrevivência. João Belé, seu companheiro de aventura e
trabalho, já tendo perdido umas rezes, atiçava Felipe: e agora cumpade? O que
vai ser de nós e de nosso gado? – Cumpade João, eu já encasquetei na minha
cabeça que tudo vai dar certo, tanto que já tenho um plano, ocê vai ver...–
qual é cumpade Felipe? – ele respondeu: chegada a hora vós me cê vai saber e
ninguém vai se queixar. Numa madrugada de quinta-feira, partia em direção das
terras do Coronel Silvestre, uma tropa de uns trinta jegues, e uns doze homens
comandados por nosso herói. Passaram pela primeira e segunda porteira e não
encontraram ninguém em volta que os interpelassem. Apearam-se e foram a luta,
tiraram, assaram, cortaram e encambitaram quase que num passe de mágica, uma
imensa quantidade de tão preciosa ração para o gado. Os animais dessa vez foram
carregados com cargas duplas; terminada a tarefa, colocaram os mesmos de volta
para São Rafael, na frente, como sempre, Felipe orgulhoso do feito ostentava a
figura de um bravo general a frente de seus comandados. Só que na última
porteira da saída da fazenda, lá estava João Pequeno com um rifle calibre 44, um
papo amarelo, apoiado no ombro, fazendo pontaria na direção dos
tropeiros invasores, com dedo no gatilho dizendo e interrogando ao mesmo tempo:
ei meninos, donde é a caatinga de vós me cês? Com uma raiva incontida,
acrescentou: respondam ligeirinho, ligeirinho, pois meu dedo tá no gatilho e ta
coçando muito. Foi um
silêncio total... Felipe foi se
aproximando do capataz com muita cautela e quando ficou frente a frente com o
valentão respondeu: é cumpade João Pequeno, a caatinga dos meninos num sei não,
mais a minha, com certeza, é no cu e no suvaco, e emendando continuou: – deixe
de bestidade, home de Deus, num tá vendo que ninguém é doido, pra levar um
despotismo desse tamanho de xiquexique pra nós, vós me cê devia saber que o
coroné desconfiado do desaparecimento da grande quantidade de xiquexique me
pediu pra eu tirar o restinho pra ele; é isso que eu tô fazendo home. João
Pequeno na sua ingenuidade, e diante da reação astuciosa do outro ainda
perguntou: e pru mode é que ocês tão vindo em direção contrária da morada do
coroné? – pruque ninguém tem nada de besta, respondeu – nós já sabia que vós me
cê tava esperando pro nós nessa purteira e, portanto vamo deixar toda a tropa
pra ocê levar inté a casa do coroné. Não, de jeito nenhum, exclamou o capataz,
coçando a cabeça, meio embaraçado: tá vendo que não vou ter uma trabaieira
desgraçada com essa jumentada toda. Entonce vamo fazer um trato, disse o astuto
Felipe Cobra: nós vai em casa armuçar, levando os animais carregado, já que vós
me cê não quer ter uma trabaieira danada e asdepois do armoço e descansar um
pouco, nós vorta trazendo a ração para a casa do coroné Silvestre; trato feito
– respondeu o ingênuo João Pequeno; e lá
se foi Felipe tangendo a tropa para São Rafael, cantando: xiquexique bom, na
caatinga tem, quem quiser comer e vender, vá tirar e queimar também.

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