É madrugada, acordo e passo a
lembrar do sonho que momentos antes tivera.
Sonhei que
havia montado num cavalo alado e tinha saído voando através do tempo e do
espaço sideral e pousava numa vila lá no alto do meu sertão (São Rafael), onde
passei os dourados dias da minha infância querida, imorredoura na memória e no
meu coração. Nesse instante, vejo-me criança, num canto de parede da sala,
próximo de outras pessoas, olhando e vislumbrando uma das paisagens mais lindas
lá no alto do sertão.
Era
aproximadamente 16 h, aquela brisa suave e cheirosa, o vento empurrando as
folhas secas que dançavam e rodopiavam no ar, anunciando que a chuva não
tardaria a chegar. Os pássaros numa alegria contagiante, voando de galho em
galho, procurando um lugar para melhor se agasalhar.
A tarde escura, uma atmosfera
carregada e abafada, as nuvens se deslocando vagarosamente, para logo em breve
desaguar. Essa vai cair logo e vai ser de arrombar açude – dizia um, enquanto
outro replicava – sapo vai pedir socorro, ninguém queira duvidar. Logo se ouvia
o grito que ecoava no ar: - menino, corre lá no quintal e vá apanhar as roupas
que estão estendidas no varal e bote a lenha pra dentro, depressa, olhe também
se os pintos estão agasalhados no forno de assar bolo, corra danado que a chuva
não tardará a chegar. Bem não terminava as determinações, o aguaceiro começava
a cair forte, pingos grossos e pesados que deixavam buracos na terra seca e
fofa, o relâmpago cortando as nuvens numa seqüência impressionante, o trovão
retumbando tão forte que dava a impressão de que o mundo ia se acabar. Enquanto
as pessoas diziam: Santa Bárbara e São Jerômi (são Jerônimo) é quem vai nos
salvar. Eu, juntamente com minha patota, saía correndo, percorrendo e
escolhendo as melhores biqueiras da vila. A enxurrada corria barrenta de rua
abaixo enquanto tentávamos represá-las construindo açudes com pedras e areia,
logo em seguida fazíamos barcos de papel, colocávamos nas águas que saíam a
navegar.
Após a chuva,
os riachos transbordando, a mata exalando aquele cheiro indescritível, as
vacas mugindo chamando
pelas suas crias,
os bezerros escaramuçando, a ovelha berrando, o jegue rinchando e o galo
cantando, sentíamos também o mormaço nas matas depois do torrencial,
admirávamos os cardumes de peixes nas sangrias dos açudes, enfim, todos
festejando a chegada do inverno, que representa a salvação de todos os seres
animados e inanimados do meu Nordeste, ou mais precisamente, do meu Sertão.

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